MANIFESTAÇÕES MODERNISTAS NOS ANOS DE 1910 A 1930
Em ou por volta de dezembro de 1910,
a natureza humana mudou.
(Virginia Woolf, Diário, p. 11)
É inegável que entre os anos de 1860 a 1930 a literatura sofreu uma grande revolução, e que, à esta revolução damos o nome de Modernismo. Mas, é com o fin-de siècle e aube-de-siècle que foram exigidos um reexame e uma reflexão das relações humanas, bem como uma transformação cultural. A Europa, por exemplo, encontrava-se num clima de fermentação artística, onde as classes, os valores e as idéias estavam em mutação.
Os artistas foram tomados pela necessidade de “tornar novo”. Os problemas que os aflingiam eram, agora, de ordem puramente estética, e referiam-se à elaboração de novas estruturas, ao uso da linguagem e ao papel social do próprio artista. E assim, em meio a essa atmosfera de rupturas e de readaptação intelectual, houve uma intensificação das manifestações modernistas. Entende-se por manifestações, os acontecimentos e as descobertas do período entre 1910 a 1930.
Ao tratarmos do Modernismo, freqüentemente recorremos ao livro Modernismo: Guia Geral de Malcolm Bradbury – que se destaca pela forma pluralista de abordar um movimento que apresenta uma grande multiplicidade no seu estilo artístico. É ainda de Malcolm a afirmação de que se pode situar “o período de maior intensidade (do modernismo) no primeiro quartel do século XX”.[1]
Virginia Woolf, por exemplo, afirma, tanto no ensaio “Character in Fiction” como no seu diário que em 1910 ocorreu uma grande transformação nas relações humanas. Veja o trecho abaixo:
(...) to the effect that on or about December 1910 human character changed. (...) All human relations have shifted-those between masters and servants, husbands and wives, parents and children. And when human relations change there is at the same time a change in religion, conduct, politics and literature[2]
Julio Cortázar, por sua vez, aponta para os anos de 1910 a 1930, como sendo o período que concebeu “o primeiro plano a uma atmosfera ou a uma intenção manifestamente irracional”.[3] O escritor afirma ainda, que o “irracional” esteve presente em todos os tempos do romance, mas, é nas três primeiras décadas do nosso século, que nos deparamos com uma deliberada submissão dos romancistas às ordens do irracional.
Alguns críticos transferem o momento de “pico” do modernismo para os anos imediatamente posteriores a Primeira Guerra Mundial, pois esta pode ser vista como o próprio momento de transição para o novo. Entretanto, ao afirmar que entre 1910 e 1930 houve um grande aumento nas manifestações modernistas, estamos nos referindo ao eixo Nova York – Londres –Paris, posto que se formos analisar do ponto de vista de Berlim – Viena – Praga, teremos um outro perfil cronológico com origens bem diferentes.
Voltemo-nos, agora à Londres do início do século, quando esta enfrentava uma fase de turbulência artística, pois, se de um lado tornava-se o centro da atividade modernista de língua inglesa, de outro, permanecia obtusa e insensível às novas artes. É nessa Londres tumultuada que encontramos um dos grupos artísticos mais importantes da Inglaterra – o grupo de Bloomsbury - que foi certamente, tanto no bem como no mal, o centro da vida intelectual de Londres.
Quatro datas são fundamentais no desenvolvimento de Bloomsbury: 1899, 1904, 1906 e 1910. Em 1899, Blomsbury nasce em Cambridge com Leonard Woolf, Thoby Stephen, Lython Strachey, Maynard Keynes, Duncan Grant, Clive Bell, Saxon Sydney – Turner e Desmond MacCarthy; em 1904, após a morte de Leslie Stephen, o elemento “Cambridge” une-se ao elemento “Londres”: Virginia e Vanessa e logo depois, Roger Fry e Edward Morgan Foster. Em 1906 Thoby morre de febre tifóide, no ano seguinte Vanessa casa-se com Clive Bell e Virginia muda-se do n° 46 da Gordon Square para o n° 29 da Fitzroy Square. Em 1910, Roger Fry organiza a primeira exposição pós-Impressionista.
Até 1910, o grupo tinha produzido muito pouco. Mas, por meio de Roger Fry, Bloomsbury estabelece relações com os artistas franceses, tais como Matisse, Picasso e Derain e que resultará na primeira exposição pós-Impressionista na Grafton Gallery, fazendo com que a notoriedade bem como a ira pública recaia sobre o grupo.
Emma Gori, no excelente ensaio, “Um lobby pacifista e elitista: o grupo de Bloomsbury”, afirma que “depois de uma fase de dispersão por algumas cidades da Inglaterra, os ‘bloomburyanos’ voltam a se encontrar em Londres”[4] criando um poder coletivo, que fora expresso por alguns acontecimentos.
A priori, temos a criação da firma Omega, que fora idealizada e fundada por Roger Fry em julho de 1913 e tinha como objetivo ajudar os jovens artistas a produzir e vender suas obras. Duncan Grant e Vanessa Bell também faziam parte da Omega que tinha como estilo a transposição para os móveis (cadeiras, mesas, tapetes, louças, etc.), a pintura pós-Impressionista sendo a posteriori, imitado por outras fábricas mais modestas.
Mas, a firma Omega, sofre um abalo, quando Whyndham Lewis faz circular uma carta entre os acionistas da firma e os amigos de Fry, na qual apresenta supostas provas que denunciavam a sua má administração (Roger Fry). Entretanto, Bloomsbury se recusa a enfrentar a violência com uma contraviolência e reagem às acusações de Lewis com um pacifismo agressivo. (Este pacifismo é uma das mais importantes características do grupo). Todavia, em 1919, Roger decide fechar a firma e vender tudo.
Influenciados pela firma Omega, Duncan Grant e Vanessa Bell criam dois “laboratórios artísticos”, um em Charleston e outro na Fitzroy Square, em Londres, onde dedicavam-se à pintura. A fama de ambos cresce consideravelmente, sendo que freqüentemente eram requisitados como decoradores e muralistas. Vanessa e Duncan realizam anualmente, exposições de seus trabalhos junto com o London Group, retomando, posteriormente, o contato com Picasso, Derain e Matisse e outros pintores chegados à Londres, por ocasião dos balés russos.
Quentin Bell, afirma que “um dos feitos mais característicos de Bloomsbury foi a publicação do livro Vitorianos Eminentes, em 1918”[5]. A fama recai, então, sobre Lytton Strachey. Entretanto, algumas pessoas não apreciam o livro de modo algum, deve-se isto, talvez ao fato do autor abordar a era vitoriana de forma irreverente, mostrando os vitorianos não como heróis ou vilões, mas como seres humanos.
Outro acontecimento interessante para Bloomsbury foi a criação da Hogarth Press, a editora dos Woolfs. A sua fundação acontece em 1917, quando os dois “lobos” moravam na Hogarth House no Bairro Richmond. A editora é responsável pela publicação de todos os livros de Virginia, exceto os dois primeiros, bem como a maior parte dos livros de Leonard. Alguns “bloomsburyanos” associam-se a Hogarth Press, entretanto, ela não era a principal editora de Foster, Bell ou Strachey.
A Hogarth Press, também foi a responsável pela publicação de A terra estéril bem como O bosque sagrado de T.S. Elliot, Ulisses de James Joyce e em 1923 publica em edição standard a obra de Sigmund Freud. Em 1924, Leonard e Virginia saem de Richmond e mudam-se para Tavistock Square, transferindo também a Hogarth Press. É aqui que a editora passa de uma fase amadora para uma fase empresarial e que publica até hoje a obra póstuma de Virginia Woolf.
Em O mundo moderno: dez grandes escritos, Malcolm Bradbury afirma que o ano de 1922 fora de grande importância para o modernismo, não só pelas obras publicadas, mas como por outros acontecimentos. (Virginia Woolf e T. S. Eliot encontram-se para discutir Ulisses). Malcolm, observa ainda que:
1922 – o ano que T. S. Elliot publicou A terra estéril, James Joyce lançou Ulisses e Marcel Proust morreu — foi, sem dúvida, um ano de grande importância para o modernismo. Foi também em 1922 que Virginia Woolf publicou seu terceiro romance, O quarto de Jacob.[6]
O ano de 1922 foi também muito importante para o modernismo brasileiro, pois é neste ano que um grupo de artistas reúne-se e realiza em São Paulo a Semana de Arte Moderna de 1922. Este evento pode não ser o ponto de partida do modernismo brasileiro, mas com certeza é o coroamento de todo um processo intelectual. Paulo Nolasco, afirma que esse processo “vinha sendo preparado antes de 22 e que continuou a sofrer revoluções ao longo daquele ano e até nossos dias”[7].
Em 1912, por exemplo, Oswald de Andrade chega da Europa, onde travara contato com os movimentos vanguardistas que lhe revelaram a necessidade de mudança e atualização das artes brasileiras que ainda eram marcadas pelo culto ao passadismo.
No ano seguinte, Lasar Segall realiza uma exposição em São Paulo que é tida como a primeira grande exposição de arte moderna realizada no Brasil, uma vez que fora inspirada no Expressionismo alemão e era marcada pela distorção das imagens bem como pela representação interior e psicológica. Entretanto, a exposição não teve tanta repercussão.
Outra exposição de pintura é realizada por Anita Malfatti que acabara de chegar da Alemanha e também fora influenciada pelo Expressionismo alemão. Logo em seguida, Anita viaja para os Estados Unidos e trava contato com o Cubismo que a influenciará na polêmica exposição realizada em 1917, que fora com certeza o acontecimento de maior repercussão do ano. Anita apresenta à sociedade brasileira os mais modernos procedimentos estéticos inspirados em arranjos pictórios, cores, formas e texturas plásticas até então desconhecidos, com exceção à exposição de Segall de 1913.
Em 1921, chega da Europa, Graça Aranha diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras. O grupo que agora era formado pelos Andrades, bem como Ribeiro Couto, Paulo Prado, Menotti del Picchia entre outros, recebe do diplomata uma nova dimensão, ou seja, a aprovação de uma autoridade reconhecida. É, ainda, Graça Aranha que fará a abertura da semana, defendendo a nova arte que tomara conta da Europa e criticando a Academia Brasileira de Letras por seu caráter conservador.
A semana fora aberta oficialmente no dia 11 de fevereiro de 1922 e permaneceu até o dia 18 de fevereiro no Teatro Municipal de São Paulo. Exposições de música, dança e pinturas bem como conferências e leituras de poemas e poesias faziam parte da programação. Os jornais noticiavam escandalizados os acontecimentos.
Enquanto, que a noite do dia 17 fora totalmente dedicada à música; e não apresentou muitos incidentes, a noite do dia 15 foi a mais tumultuada e polêmica. Aberta com uma palestra de Menotti del Picchia, completamente provocativa. O escritor defendia a nova visão estética e a criação de uma “genuína cultura nacional”. Após a palestra de Menotti, foram lidas algumas obras em verso e prosa, em seguida, Oswald de Andrade leu o trecho do seu livro Os condenados. Entretanto, foi quando Ronald de Carvalho leu o poema Os sapos de Manuel Bandeira, que a agitação tomou formas imensuráveis, pois o poema satirizava a poesia parnasiana e transformava seus autores em sapos.
O primeiro trabalho gerado em torno da Semana de 22 foi o livro de poesias Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade. O livro vinha repleto de inovações, pois mostrava uma poesia urbana, fragmentária e anti-romântica que retratava a São Paulo concreta e cosmopolita. Na prosa, entretanto, destaca-se o livro Os condenados de Oswald de Andrade, que já apresentava uma narrativa pessoal e fragmentária, baseada numa montagem cinematográfica.
As revistas tornaram-se também muito importantes no período pós-Semana, pois marcaram dois acontecimentos importantes: em primeiro lugar estava a difusão do movimento modernista brasileiro; em segundo lugar, as divisões dentro da vanguarda paulistana.
Dentre essas revistas destacavam-se a Revista do Brasil, o Pirralho, Fon-Fon ou Panóplia que já existiam antes da semana. Entretanto, é com a criação da revista Klaxon-Mensário de Arte Moderna que a proposta modernista é articulada de forma mais ampla. Lançada em maio de 22, a revista durou apenas nove edições e desapareceu após dezembro. A revista apresentava duas linhas de pensamentos, atuantes e, em certos momentos, conflitantes. Enquanto a primeira estava preocupada em continuar a vocação futurista e vanguardista da Semana, buscando a criação de uma nova linguagem, a segunda preocupava-se em identificar e construir uma cultura nacionalista.
Em 1926 é fundada em São Paulo a revista Terra Roxa e Outras Terras que como o próprio título já insinua, tratará das questões da cultura e das especificidade regionais, tema este que, estava tão em voga.
Desde 1922 até os dias de hoje, a Semana de Arte Moderna vem se destacando como um fato marcante do modernismo brasileiro e, que muitas vezes, pode ser visto como o símbolo da renovação artística no Brasil.
Levantamos alguns aspectos importantes do modernismo e mostramos alguns acontecimentos significativos no período entre 1910 a 1930 que propiciaram, ao mesmo tempo, mudanças tanto no comportamento quanto na política e nas artes, chamando a atenção para a importância que tiveram a Semana de Arte Moderna, em São Paulo e o Grupo de Bloomsbury em Londres. Entretanto, advertimos que, vários acontecimentos não foram mencionados, mas poderão ser discutidos em um outro momento.
Referências Bibliográficas:
ALAMBERT, Fransciso. A semana de 22: a aventura modernista no Brasil. São Paulo: Scipione. 1992. 104 p.
BELL, Quentin. Bloomsbury. Trad.: Suely Cavendish. Rio de Janeiro: Ediouro, 1993. 127p.
BRADBURY, Malcolm, O mundo moderno: dez grandes escritores. Trad.: Paulo Henriques Brito. São Paulo: Companhia das letras, 1989. 247 p. P. 197-214: Virginia Woolf.
BRADBURY, Malcolm, McFARLANE, James (org.). Modernismo: guia geral 1890-1930. Trad.: Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. 556 p. Primeira parte. Capítulo 1: o nome e a natureza do modernismo, p. 13-42.
CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. Trad. sel. org.: Davi Arrigucci Júnior. São Paulo: Perspectiva, 1974. 257 p. Capítulo 3: Situação do romance, p. 61-83.
DE MASI, Domenico. (org.) A emoção e a regra: os grupos criativos na Europa de 1850 a 1950. Trad.: Elia Ferreira Edel. Rio de Janeiro: José Olympo, 1997. 407 p. P. 13-21: Introdução de Domenico De Masi.
GORI, Emma. Um lobby pacifista e elitista: o grupo de Bloombury. IN: DE MASI, Domenico. (org.) A emoção e a regra: os grupos criativas da Europa de 1850 a 1956. Trad.: Elia Ferreira Edel. Rio de Janeiro: José Olympo, 1997. 407 p.
NOLASCO, Paulo Sérgio. Nas malhas da rede: uma leitura crítico-comparativa de Julio Cortázar e Virginia Woolf. Campo Grande: Editora UFMS, 1998. 200 p.
TELLES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação dos principais poemas, manifestos, prefácios e conferências vanguardistas, de 1857 a 1972. 14ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. 446 p.
WOOLF, Virginia. Diário. Primeiro Volume: 1915-1926. Trad.: Maria José Jorge. Lisboa; Bertrand, 1985. 471 p.
WOOLF, Virginia. The essays of Virginia Woolf. Volume 3: 1919-1924. London: The Hogarth Press, 1988. 551 p. (Ed. Andrew McNeillie). P. 420-438: Character in fiction.
[1] BRADBURY. MCFALANE. Modernismo: Guia Geral, p.27
[2] WOOLF. Character in Fiction, p. 422. Cf. também WOOLF. Diário. Primeiro volume. 1915 – 1926, p.213.
[3] CORTÁZAR. Situação do romance, p. 73.
[4] GORI. Um lobby pacifista e elitista: o grupo de bloomsbury, p. 156.
[5] BELL. Bloomsbury, p. 82.
[6]BRADBURY. Virginia Woolf, p. 197.
[7] NOLASCO. Nas malhas da rede: uma leitura crítico-comparativa de Julio Cortázar e Virginia Woolf, p. 31.